terça-feira, 2 de maio de 2017

Com a morte de Belchior, perdemos um cronista da realidade humana

Eu estava devendo escrever algo quando eu soube da morte de Belchior. Não me considero fã do cantor, embora gostasse bastante de várias de suas músicas e admirasse sua atitude meio rebelde, totalmente intelectual. Seu ábim mais importante é o álbum Alucinação, de 1976, de clara influência roqueira, a começar pela capa psicodélica. Mas é óbvio que a perda de alguém único como Belchior gera imensa tristeza

O cantor e compositor sempre foi marcado pelo trabalho evidentemente intelectualizado. Era um cronista da realidade humana. Com letras muito bem escritas, não somente pelos temas amadurecidos, mas pela boa escolha das palavras e rimas, e pelo encaixe nas melodias. O autor nascido em 1946 em Sobral, no Ceará, costumava encher suas letras de referências culturais (algo que o escocês Lloyd Cole fazia muito nos anos 80), estimulando seus fãs a correrem atrás de informações sobre o que era citado nelas.

Belchior era famoso pela voz anasalada, meio fanha, que na verdade era um falsete. Normalmente o cantor não era fanho, apesar de seu vasto bigode fazer os outros pensarem que estimularia a citada alteração na fala. Mesmo não sendo de fato fanho, se consagrou mais como um compositor e várias de suas músicas foram gravadas por outros intérpretes, sendo a mais conhecida o blues Como Nossos Pais, gravada por Elis Regina, com letra que fala da acomodação que faz com que jovens cometam os mesmos erros de gerações anteriores.

Factoide ridicularizador

Apesar da inegável importância musical (ou por causa dela), na virada da década de 2000/2010, a Rede Globo decidiu promover um factoide em que sugeria o sumiço do Belchior. O factoide rendeu muitas piadas, reforçadas pela estranha voz e pelo enorme bigode de sua conhecida aparência. Tudo não passou de uma brincadeira de mau gosto.

O cantor foi encontrado no Rio Grande do Sul, na fronteira com o Uruguai, com a esposa, isolado dos holofotes. Suspeitas de que estaria se escondendo por causa de dívidas financeiras (irônico para quem cantou que estava sem dinheiro no bolso).

O cantor virou piada numa época de explícita decadência cultural, onde artistas sérios eram ridicularizados (Chico Buarque tratado como um "garanhão aos moldes do Latin Lover") e "artistas" mercenários, de qualidade duvidosa (Chitãozinho e Xororó, Ivete Sangalo, Exaltasamba, funqueiros) eram levados a sério como "renovadores da música".

Mesmo sem criar há muito tempo - ele dizia estar isolado para compor mais, mas até a sua morte nenhuma nova criação foi divulgada - é triste a sua morte e a sua ausência incomoda. Numa época onde até setentões parecem jovens e dão show de resistência física (não é, Mick Jagger?), Belchior morreu jovem. Belchior faz muita falta. Talvez ainda tivesse muito o que dizer. 

Suas letras, numa época conturbada da sociedade brasileira, viriam a calhar. Suas palavras acabariam servindo de conselhos a uma sociedade sem lideranças ainda perdida sem saber para onde andar. Todos nós, rapazes latinos-americanos sem dinheiro no bolso e sem parentes importantes. Pois o nosso parente mais importante, Belchior, meio pai, meio irmão, se mandou para outro lugar. Provavelmente ainda sem dinheiro no bolso.

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