quinta-feira, 13 de abril de 2017

Estou viciado em XTC

Alto lá! Não entendam mal o título desta postagem! Não virei narcótico! Continuo limpinho da silva, sem sequer fumar cigarro ou tomar álcool (embora muita gente viva criticando minha aversão às bebidas alcoólicas mesmo sendo ateu). É que eu me viciei pela excelente banda new wave de Swindon, Inglaterra, a XTC, liderada pelo genial Andy Partridge e seu parceiro Colin Moulding.

Ultimamente tenho ouvido os álbuns inteiros da banda disponibilizados no YouTube. Caramba! Fiquei viciado. Parece que eu criei uma necessidade orgânica de ouvir musicas da banda. Quando estou no comutador, ponho meu fone de ouvido e lá vem o YouTube se arrastando com a banda. Esta postagem está sendo escrita ao som do maravilhoso Drums and Wires, de 1979, terceiro álbum e o que apresentou a banda ao mundo.

Sempre gostei da XTC, que curiosamente surgiu um ano depois de eu nascer. Pela faixa etária dos integrantes, cerca de 10 anos a mais que eu, certamente os caras eram praticamente crianças quando a banda começou. A primeira música que me lembro de ter ouvido da banda é Making Plans for Nigel, ouvida por mim em 1982, na época ainda sem saber que banda interpretava. Conheci posteriormente outras músicas da banda, ainda sem prestar muita atenção no nome. 

Urgh! Uma guerra musical!

Uma das mais ouvidas por mim estranhamente não está em nenhum dos álbuns. Nem mesmo na coletânea oficial Fossil Fuel aparece: Take This Town, lado B do compacto Wake Up, do álbum de 1984, The Big Express. Estranhamente a música segue o mesmo estilo do Oingo Boingo, banda que como a XTC (assim como Police, Echo & The Bunnymen e Jools Holland, este um pianista que misturava new wave e jazz tradicional e que apresenta um excelente programa musical que passa aos sábados no BIS) estava no Urgh!, a Music War!

Urgh! a Music War! foi um filme que relatou um festival de apresentações com bandas de new wave do início dos anos 80, ou seja, bandas que marcaram o auge da minha juventude. Cheguei a ter em vinil - importado, comprado em sebo, com a mesma capa que aparece na foto - a versão em áudio das apresentações. O XTC apareceu com uma versão mais agressiva de Respectable Street, de seu segundo álbum.

Bem antes de ter o disco do Urgh!, que comprei, se não me engano em 1997, comprei, ainda no Rio de Janeiro, no mesmo ano em que mudei para Salvador, o álbum duplo Oranges & Lemons, creio ser o único da banda lançado em cópia nacional no Brasil. 

O álbum, gravado em 1989, solidifica a influência sessentista (sobretudo Beatles e Beach Boys) iniciada pelo projeto do Dukes of Stratosphear (o próprio XTC sob pseudônimo) e o álbum Skylarking, produzido pelo cantor Todd Rundgren, que eu gosto bastante, embora não seja dos meus músicos favoritos. Reouvi o álbum - que não está mais comigo, pois não tenho mais vinil -recentemente e pude prestar atenção em sua beleza, algo que nã reparei na época em que comprei.

A banda se extinguiu em 2006. Seus integrantes aparentemente largaram a carreira musical, embora demonstrem vontade de retomar a carreira - mas não a banda. Apesar de ser marcada pela excelente qualidade de seu som, aos poucos foram perdendo a inspiração. Nonesuch, de 1992, último pela Virgin, gravadora que contratou a banda em 1977, é bem fraco, se destacando apenas pela empolgante, mas radiofônica Peter Pumpkin Head, que parece ter sido feita sob encomenda para ser hit.

XTC não interessa para espantalhos sedentos por mediocridades

De qualquer forma, a XTC é uma dessas bandas desconhecidas do grande púbico e que foi marcada pela excelente qualidade musical, não somente nas melodias e arranjos, mas também as letras. Scarecrow People (sobre alienação + insensibilidade: os coxinhas, verdadeiros espantalhos, sabem muito bem o que é isso) e a ateísta Dear God são bem reflexivas, além de utilizarem bem as palavras, encaixando com as melodias. 

Mesmo sendo temas fortes, há qualidade no desenvolvimento das letras. Há um consenso no Brasil de que qualidade de uma letra de música está no tema escolhido, o que não é verdade. Prefiro um tema banal numa letra brilhante como fazia o saudoso compositor Braguinha do que um tema forte em letra banal como a infantil To P da Vida, que é uma verdadeira porcaria pseudo-politizada. Aliás, boas letras politizadas são uma especialidade da XTC.

Até o momento a banda segue calada e seus integrantes longe dos holofotes. Em um mundo em que "gênios" são Britney Spears, Beyoncé e Justin Bieber e suas mediocridades sonoras regadas a doses de pseudo-erotismo, uma banda realmente genial como a XTC não consegue chamar a atenção das grandes massas. Os espantalhos gostam mesmo é de cabarés sonorizados por musiquinhas ruins que verdadeiros mercenários musicais como Bieber, Beyoncé e Spears só sabem fazer. O XTC está muito longe deste teatro de ilusões.