sábado, 12 de novembro de 2016

Leonard Cohen, um Patrimônio Cultural

Eu não estava planejando escrever sobre Leonard Cohen. Eu nunca curti a música dele e an minha ignorância, achava que a sua música combinava mais com o médio burguês caracterizado pelos médios empresários e profissionais liberais (médicos, advogados, engenheiros e similares), quando estes desejavam se "descontrair" e ouvir músicas "românticas" para curtirem com suas belíssimas (no sentido sofisticado do termo) e jovens mulheres.

Mas mesmo não gostando do som aparentemente monótono de Cohen, é impossível não reconhecer o seu altíssimo valor cultural. Discordo da maioria das pessoas quando elas preferem dar valor cultural apenas à aquilo que elas gostam ou o que pareça palatável. Para o senso comum, a música meramente dançante de letras medíocres e engajamento nulo de Michael Jackson soa muito melhor que a poesia reflexiva de Leonard Cohen. Mas do contrário do também falecido chacoalejante, Cohen pelo menos tem algo a dizer.

Talvez, ao meu ver, o bardo, canadense de Montreal, servisse muito mais como literatura (ele também era escritor) do que como música. Cohen, faleceu no último dia 7, aos 82 anos, de causa não revelada. Mas a idade elevada e o fato dele ter sido um fumante inveterado, tornam compreensível o falecimento acontecido. Mesmo assim, viveu muito e produziu muito, sem ter se aposentado de sua capacidade de criar.

O tipo de música que cantava era folk, mas numa tradução mais urbana. Não era roqueiro - aparentava ter uma postura sisuda demais para tal - mas tinha respeito quase unânime entre os roqueiros. Frequentemente era comparado com seu colega de gravadora (Columbia Records), Bob Dylan, quanto a qualidade de sua obra, embora a política não esteja entre os temas de sua obra.

Era um homem honesto, sensível, discreto e culto e se tornou um estudioso do budismo. Era exigente consigo mesmo e chegou a parar uma apresentação - eu vi isso em um documentário - por ela não estar do jeito que ele queria, se dispondo a devolver o ingresso ao público. Era um artista sincero, espontâneo e um ser humano de uma certa forma exemplar.

Suas criações, seja na música ou na literatura tinham constantemente a função de refletirmos sobre a vida e sobre o que acontece ao nosso redor. Ele mesmo gostava muito do verbo "refletir" e prefiro usar isso como marca para associar a Cohen para a eternidade.

Mesmo não curtindo a música de Cohen - talvez eu gostasse mais de ler as suas letras ao invés de ouvi-las - tenho a responsabilidade de reconhecer que morreu um verdadeiro patrimônio cultural humano. Um homem que soube mais do que muitos a soltar o que saía de sua alma e não dos escritórios de gravadoras (felizmente a mercenária Columbia sempre respeitou a espontaneidade de Cohen, patrono da Cultura Alternativa), como acontece com a maioria esmagadora dos cantores e grupos surgidos a partir de 30 anos para cá, meros produtos de entretenimento musical.

Em tempos de mediocridade cultural, sempre é triste a morte de verdadeiros mestres como Leonard Cohen. Como ele, a cultura vai morrendo junto, sem repor a lacuna deixada.

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