sábado, 20 de agosto de 2016

De onde tiraram a ideia de que Beyoncé é genial?

Embora poucos admitam, a música comercial é monstruosamente hegemônica. A carreira musical se tornou uma excelente fonte de renda e isso tem favorecido muita gente sem talento ou sem vocação a investir neste tipo de carreira em que se pode ganhar muito dinheiro sem o esforço braçal e intelectual de uma profissão convencional. Resultado: o que deveria ser espontâneo e criativo, sai falso e padronizado, como a  linha de montagem de uma indústria.

A superestimada Beyoncé Knowles. Knowles é considerada a "maior cantora da atualidade" e veio de um grupo vocal feminino conhecido como Destiny's Child, seguindo a linha oversinging de Whitney Houston, a cantora que arrasou com a música black, que antes dela, era uma maravilha e depois ficou medíocre. 

Com a carreira solo, Beyoncé foi trabalhada para ser um exemplo de mulher bem sucedida (como fazem com Ivete Sangalo aqui), conquistando em massa as jovens feministas mais ingênuas que enxergam na cantora um "Feminismo" sem ideias, mas com "atitude".

É uma bela embalagem que aberta se mostra com conteúdo chocho e sem utilidade. Beyoncé (que também lança mão do cabaret pseudo-erótico em suas apresentações, como em quase todo o pop pós-Michael Jackson), tem um repertório sofrível, alienado e padronizado, apesar de ter realmente uma bela voz, que é desperdiçada em seu tipo de música.

Estava em um shopping da cidade onde eu moro e estava tocando o álbum mais recente da cantora, chamado Lemonade*. Para os que enxergam genialidade na cantora, digo que estão vendo cabelo em casca de ovo. O álbum parece uma coletânea de tudo que é tocado no rádio em voz feminina. Uma cópia descarada do mais monótono do hit-parade dos dias atuais.

Quem é mais sensato e ouve Lemonade, é estimulado a perguntar: cadê a tão falada genialidade de Beyoncé? Porque ela é tão querida pelas jovens que se consideram feministas? Que tipo de contribuição cultural Beyoncé oferece fazendo uma sonoridade que não passa de produto fabricado pela indústria da música? 

A única resposta que se pode obter é que Beyoncé é comercial, existe apenas para divertir e sua importância para a evolução cultural é nula. A imagem de "mulher superpoderosa que influencia as feministas" é na verdade uma imagem construída para vender. Uma propaganda. 

Se Beyoncé não fosse levada a sério e fosse vista como música para divertir, tudo bem. Está bem claro que é para isso que ela existe. Mas embutir nela qualidades que combinariam mais com cantoras como Laura Nyro, Sarah Vaughan, Tori Amos e entre as mais recentes, Fiona Apple e Vanessa Carlton, só forçamento de barra. É querer que uma cantora competente mas, puramente comercial tomasse o lugar de cantoras mais compromissadas com a arte e com uma postura um pouco mais intelectual.

Beyoncé mostra que a música atual está cada vez mais comercial do que nunca, enganando muitos ouvintes e fãs. E que esse papo de "autenticidade" defendido por muitos jovens cantores atuais não passa de propaganda enganosa feita para embutir "espontaneidade" e intelectualidade" em algo que só é feito para se fazer sorrir e dançar.

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*OBS: Curioso que apesar da música atual ter se tornado monotemática, falando praticamente só de relações amorosas, os títulos de músicas e álbuns tem fugido desta tendência, o que significa que os entertainers de hoje apelam para a metáfora para disfarçar o monotema, já que quando ouvimos as obras, lá estão as relações amorosas, reais ou não, positivas ou negativas, sendo cantadas nas letras.  Estranho que o excesso de músicas sobre amor coincide com a atual época de ódio. Quem tem que provar o tempo todo que é alguma coisa, é porque não é esta coisa.